
“Aquele que dá o que não pode guardar
para ganhar o que não pode perder
não é tolo”.
Jim Elliot, um dos cinco missionários mortos pelos índios aucas em 08 de janeiro de 1956.

“Aquele que dá o que não pode guardar
para ganhar o que não pode perder
não é tolo”.
Jim Elliot, um dos cinco missionários mortos pelos índios aucas em 08 de janeiro de 1956.

“Não se preocupe em entender.
Viver ultrapassa todo o entendimento”.
Clarice Lispector
Para Pablo e Milena, que ousaram cantar esta canção no culto de domingo à noite!
Paciência
Lenine
Composição: Lenine e Dudu Falcão
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára…
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara…
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência…
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência…
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara…
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não…
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara…
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não…
A vida não pára!…
A vida é tão rara!…
Karen Blixen, dinamarquesa de nascimento, casou-se com um barão e passou os anos de 1914-31 administrando uma plantação de café na África Britânica, no Leste (seu livro Out of Africa fala daqueles anos). Depois de um divórcio, ela voltou à Dinamarca e começou a escrever em inglês com o pseudônimo Isak Dinesen. Uma de suas histórias, “A festa de Babette“, tornou-se um clássico respeitado depois de ser transformado em filme na década de 80.
Dinesen situou sua história na Noruega, mas os cineastas dinamarqueses mudaram o local para uma pobre aldeia de pescadores no litoral da Dinamarca, uma localidade de ruas lamacentas e cabanas cobertas de palha. Neste ambiente triste, um ministro de barbas brancas liderava um grupo de crentes de uma austera seita luterana.
Os poucos prazeres mundanos que pudessem tentar um camponês em Norre Vosburg eram condenados por essa seita. Todos usavam roupas pretas. Sua alimentação consistia em bacalhau cozido e uma papa feita de pão escaldado em água enriquecida com um borrifo de cerveja. Aos sábados, o grupo se reunia e cantava hinos a respeito de “Jerusalém, meu lar feliz, nome sempre querido para mim“. Eles haviam direcionado suas bússolas para a Nova Jerusalém, e a vida na terra era apenas tolerada como um meio de chegar lá.
O velho pastor, um viúvo, tinha duas filhas adolescentes: Martine, chamada assim por causa de Martinho Lutero, e Philippa, por causa do discípulo de Lutero, Philip Melanchton. Os habitantes da vila costumavam ir à igreja apenas para deliciar seus olhos olhando para as duas, cuja radiante beleza não podia ser ocultada, apesar dos melhores esforços das duas irmãs.
Martine captou os olhares de um jovem e arrojado oficial da cavalaria. Quando ela, obstinadamente, resistiu às suas investidas — afinal, quem cuidaria de seu velho pai? — ele foi embora para se casar com uma dama de companhia da rainha Sofia.
Além de ser muito bela, Philippa também possuía a voz de um rouxinol. Quando ela cantava a respeito de Jerusalém, visões reluzentes da cidade celestial pareciam surgir. E aconteceu que Philippa conheceu o mais famoso cantor de ópera daquele tempo, o francês Achille Papin, que estava passando uns dias no litoral por causa da saúde. Enquanto caminhava pelos poeirentos caminhos de uma cidade atrasada, Papin ouviu, para sua grande admiração, uma voz digna da Grand Opera de Paris.
“Deixe-me ensiná-la a cantar de maneira certa“, ele insistiu com Philippa, “e toda a França vai cair a seus pés. A realeza vai fazer fila para conhecê-la, e você vai andar de carruagem puxada por cavalos para jantar no magnífico Café Anglais “. Lisonjeada, Philippa consentiu em tomar algumas lições, mas apenas algumas. Cantar a respeito do amor fê-la ficar nervosa, a agitação dentro dela a perturbou mais ainda e, quando uma ária de Don Giovanni acabou com ela sendo enlaçada pelos braços de Papin, os lábios dele roçando os seus, ela soube, sem a menor sombra de dúvida, que estes novos prazeres tinham de ser abandonados. Seu pai escreveu um bilhete desisitindo de todas as futuras lições, e Achille Papin voltou a Paris, tão triste como se tivesse perdido um bilhete de loteria premiado.
Passaram-se quinze anos, e muita coisa mudou na vila. As duas irmãs, agora solteironas de meia-idade, tentaram continuar com a missão do falecido pai, mas, sem a sua séria liderança, a seita estilhaçou-se. Um irmão tinha queixas de outro por causa de algum negócio. Espalharam-se boatos de que havia um caso de sexo ilícito há trinta e dois anos envolvendo duas pessoas da comunidade. Duas velhas senhoras não se falavam há uma década. Embora a seita ainda se reunisse aos domingos e cantasse velhos hinos, apenas um punhado de pessoas se davam ao trabalho de ir, e a música havia perdido o seu entusiasmo. Apesar de todos esses problemas, as duas filhas do ministro continuaram fiéis, organizando os cultos e escaldando pão para os anciãos desdentados da vila.
Uma noite, chuvosa demais para que alguém se aventurasse pelas ruas lamacentas, as irmãs ouviram fortes batidas na porta. Quando a abriram, uma mulher caiu desmaiada. Elas a reanimaram e descobriram que não falava dinamarquês. Ela lhes entregou uma carta de Achille Papin. Ao ver aquele nome Philippa enrubesceu, e sua mão tremia enquanto ela lia a carta de apresentação. O nome da mulher era Babette. Ela havia perdido o marido e filho durante a guerra civil na França. Com a vida em perigo, tivera de fugir, e Papin lhe arranjara uma passagem em um navio com esperança de que essa aldeia lhe demonstrasse misericórdia. “Babette sabe cozinhar“, dizia a carta.
As irmãs não tinham dinheiro para pagar Babette e, antes de mais nada, não sabiam se deviam ter uma empregada. Desconfiaram de sua arte — os franceses não comiam cavalos e rãs? Mas, por meio de gestos e rogos, Babette amoleceu o coração delas. Ela poderia fazer alguns serviços em troca de quarto e comida.
Durante os doze anos seguintes Babette trabalhou para as irmãs. A primeira vez que Martine mostrou-lhe como cortar um bacalhau e cozinhar a papa, as sobrancelhas de Babette se elevaram e o seu nariz enrugou um pouco, mas nunca questionou suas tarefas. Ela alimentava os pobres na cidade e assumiu todas as tarefas domésticas. Até ajudava nos cultos de domingo. Todos tinham de concordar que Babette trouxe nova vida à estagnada comunidade.
Uma vez que Babette nunca se referia ao seu passado na França, foi uma grande surpresa para Martine e Philippa quando, um dia, depois de doze anos, ela recebeu a primeira carta. Babette a leu, viu as irmãs de olhos arregalados e anunciou de maneira natural que uma coisa maravilhosa lhe havia acontecido. Todos os anos um amigo em Paris renovava o número de Babette na loteria francesa. Nesse ano, o seu bilhete fora premiado. Dez mil francos!
As irmãs apertaram a mão de Babette, parabenizando-a, mas lá no fundo seus corações desfaleceram. Sabiam que logo ela iria embora.
A sorte grande de Babette na loteria coincidiu com o momento em que as irmãs estavam discutindo sobre a celebração de uma festa em homenagem ao centenário do nascimento de seu pai. Babette lhes fez um pedido. Disse que em doze anos nunca lhes pedira nada. Elas assentiram. “Agora, porém, tenho um pedido: Gostaria de preparar uma refeição para o culto de aniversário. Quero cozinhar uma verdadeira refeição francesa“.
Embora as irmãs tivessem sérias dúvidas a respeito desse plano, Babette, sem nenhuma sombra de dúvida, estava certa de que nunca havia pedido nenhum favor em doze anos. Que escolha elas tinham a não ser concordar?
Quando o dinheiro chegou da França, Babette fez uma rápida viagem para providenciar os arranjos para o jantar. Nas semanas que se seguiram à sua volta, os habitantes de Norre Vosburg foram surpreendidos com a visão de vários barcos ancorados descarregando provisões para a cozinha de Babette. Trabalhadores empurravam carrinhos de mão cheios de gaiolas com pequenas aves. Caixas de champanhe — champagne! — e vinho logo se seguiram. A cabeça inteira de uma vaca, vegetais frescos, trufas, faisões, presunto, estranhas criaturas que viviam no mar, uma imensa tartaruga ainda viva mexendo a cabeça como a de uma cobra de um lado para o outro — tudo isso acabava na cozinha das irmãs agora firmemente dirigida por Babette.
Martine e Philippa, alarmadas com os preparativos que mais pareciam de bruxa, explicavam a embaraçosa situação aos membros da seita, agora apenas onze pessoas, velhas e grisalhas. Todas manifestavam simpatia com elas. Depois de alguma discussão concordaram em comer a refeição francesa, refreando os comentários para que Babette não entendesse mal. Línguas haviam sido feitas para louvor e ação de graças, e não para satisfazer gostos exóticos.
Nevava no dia 15 de dezembro, o dia do jantar, iluminando a aldeia obscura com um brilho branco. As irmãs ficaram satisfeitas ao saber que um hóspede inesperado se juntaria a elas: a senhora Loewenhielm, de noventa anos de idade, estaria acompanhada de seu sobrinho, o oficial de cavalaria que havia cortejado Martine tempos atrás, e agora era general no palácio real.
Babette havia conseguido emprestadas louças e cristais suficientes, e havia enfeitado o recinto com velas e coníferas. A mesa estava linda. Quando a refeição começou todos os habitantes da aldeia se lembraram de seu pacto e ficaram mudos, como tartarugas ao redor de um lago. Apenas o general comentou a comida e a bebida. “Amontillado!“, ele exclamou quando levantou o primeiro copo. “É o mais fino Amontillado que já provei.” Quando experimentou a primeira colherada de sopa, o general poderia jurar que era sopa de tartaruga, mas como se acharia tal coisa no litoral da Jutlândia?
“Incrível!“, disse o general quando experimentou o próximo prato. “É Blinis Demidoff!” . Todos os outros convivas, as faces franzidas por profundas rugas, estavam comendo as mesmas delicadezas raras sem nenhuma expressão ou comentários. Quando o general entusiasmado elogiou o champanhe, um Veuve Cliquot 1860, Babette ordenou ao seu ajudante de cozinha que mantivesse o copo do general cheio o tempo todo. Apenas ele parecia apreciar o que estava diante dele.
Embora ninguém mais falasse a respeito da comida ou da bebida, gradualmente o banquete operou um efeito mágico sobre os habitantes da aldeia. O seu sangue esquentou. Suas línguas se soltaram. Eles falaram dos velhos dias quando o pastor estava vivo e do Natal em que a baía congelou. O irmão que havia enganado o outro nos negócios finalmente confessou, e as duas mulheres que tinham uma rixa acabaram conversando. Uma mulher arrotou, e o irmão ao seu lado disse sem pensar: “Aleluia!”.
O general, entretanto, não conseguia falar de nada além da comida. Quando o ajudante da cozinha trouxe o coup de grâce, codornizes preparadas em Sarcophage, o general exclamou que vira tal prato apenas em um lugar na Europa, no famoso Café Anglais em Paris, o restaurante que já fora célebre por ter uma mulher como chefe-de-cozinha.
Cheio de vinho, o apetite satisfeito, incapaz de se conter, o general levantou-se para fazer um discurso. “A misericórdia e a verdade, meus amigos, se encontraram“, ele começou. “A justiça e a bem-aventurança se beijaram.” E, então, o general fez uma pausa, “pois — conforme comenta Isak Dinesen — ele tinha o hábito de fazer os seus discursos com cuidado, consciente do seu propósito, mas aqui, no meio da simples congregação do pastor, foi como se toda a figura do General Loewenhielm, com seu peito coberto de condecorações, fosse porta-voz de uma mensagem que tinha de ser transmitida“. A mensagem do general era graça.
Embora os irmãos e as irmãs da seita não compreendessem totalmente o discurso do general, naquele momento “as vãs ilusões desta terra se dissolveram diante de seus olhos como fumaça, e eles viram o universo como ele realmente era“. O pequeno grupo se desfez e saiu para uma cidade coberta de neve brilhante sob um céu recoberto de estrelas.
A “Festa de Babette” termina com duas cenas. Lá fora, os velhos se dão as mãos ao redor da fonte e cantam entusiasmados os velhos hinos da fé. É uma cena de comunhão: a festa de Babette abriu o portão e a graça entrou silenciosamente. Eles sentiram, acrescenta Isak Dinesen, “como se realmente tivessem os seus pecados lavados e tornados brancos como a lã, e nessas vestes inocentes recuperadas faziam brincadeiras como cordeirinhos travessos“.
A cena final acontece lá dentro, na bagunça de uma cozinha cheia até o teto de louça para lavar, panelas engorduradas, conchas, carapaças, ossos cartilaginosos, engradados quebrados, cascas de vegetais e garrafas vazias. Babette senta-se no meio da bagunça, parecendo tão desgastada quanto na noite em que chegara doze anos antes. Subitamente, as irmãs percebem que, de acordo com o seu voto, ninguém havia falado com Babette a respeito do jantar.
— Foi um jantar e tanto, Babette — Martine diz para começar. Babette parece distante. Depois de um minuto ela responde: — Eu era a cozinheira do Café Anglais.
—Todos nós vamos-nos lembrar desta noite quando você tiver voltado para Paris, Babette — Martine acrescenta, como se não a tivesse ouvido.
Babette lhes diz que não vai voltar para Paris. Todos os seus amigos e parentes ali foram mortos ou feitos prisioneiros. E, naturalmente, seria muito caro voltar para Paris.
— Mas e os dez mil francos? — as irmãs perguntam.
Então Babette deixa cair a bomba. Ela havia gasto tudo, cada franco dos dez mil que ganhara, na comida que haviam acabado de devorar. — Não se assustem — ela lhes diz. — É isso que um jantar adequado para doze custa no Café Anglais.
No discurso do general, Isak Dinesen não deixa dúvidas de que ela escreveu “A Festa de Babette” não apenas como uma história a respeito de uma excelente refeição, mas como uma parábola da graça: um presente que custa tudo para o doador e nada para o que recebeu. Isto é o que o General Loewenhielm disse aos carrancudos paroquianos reunidos ao redor da mesa de Babette:
Todos nós fomos informados de que a graça deve ser buscada no universo. Mas em nossa loucura humana e nossa visão reduzida imaginamos que a graça divina seja finita… Porém, chega o momento em que nossos olhos são abertos, e vemos e entendemos que a graça é infinita. A graça, meus amigos, não exige nada de nós a não ser que a aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão.
Doze anos antes, Babette aparecera entre aquelas pessoas desprovidas de graça. Discípulas de Lutero, ouviam sermões a respeito da graça quase todos os domingos e no restante da semana tentavam obter o favor de Deus com a sua piedade e renúncia. A graça veio a elas na forma de uma festa, a festa de Babette, uma refeição desperdiçando uma vida inteira sobre aqueles que não a haviam merecido, que mal possuíam a faculdade de recebê-la. A graça veio como sempre vem: livre de pagamento, sem cordas amarradas, como oferta da casa.
Philip Yancey, em Maravihosa Graça.

por Ebeneser Nogueira
Quem nunca sonhou com um natal branco? Neve nos telhados e nos pinheiros, uma lareira acesa, uma árvore gigante iluminada cheia de presentes na sala, um peru no forno, família reunida e, ao fundo, o doce som dos cânticos natalinos.
Apesar de amar essa imagem, onde moro costuma chegar bem perto dos 40º no mês de dezembro, e, em vez de pinheiros, mandacarus e algarobas desenham o cenário poeirento do sertão. Ao invés de lareiras, desejamos profundamente que o presente natalino seja um potente condicionador de ar…
Qualquer que seja o cenário, o natal tem o poder de nos humanizar. Pensamos em amigos (secretos ou não), em reunir a família, em dar (nós, seres egoístas, dando presentes! É um milagre de natal!). Damos gorjetas ao carteiro, ao moço da limpeza, ao porteiro. Por um breve período pensamos no próximo. Ajudamos nas cestas para os necessitados. Pensamos nos nossos queridos e gastamos um bom tempo à procura do presente ideal.
A inspiração para tanta bondade está na origem do natal: Deus nos deu o maior presente que poderíamos receber! Seu Filho veio a este mundo, tornou-se homem, para providenciar a nossa salvação. Diante de presente tão grandioso ficamos maravilhados, e mesmo que nossa troca de presentes nunca se compare a dádiva divina, imitamos o Pai celestial e experimentamos que “melhor é dar que receber”.
A ceia de natal, que tanto valorizamos, nos aponta para a verdade eterna de que um dia estaremos sentados na mesa do banquete no reino dos céus, onde não haverá mais lágrimas, nem noite, mas o Senhor mesmo será a nossa luz e então será Dia Eterno.
Espero o ano inteiro pelo natal, e fico triste quando tenho que recolher e guardar os enfeites por mais um ano, mas luto para fazer de cada dia do novo ano um eterno natal, onde devo pensar mais no próximo e lembrar que não estou sozinho: Cristo está comigo, e Sua presença real transforma em ceia de natal cada simples refeição e enche de beleza cada momento comum. Feliz Natal!
EM SONHO eu viajava por uma estrada sem movimento: silenciosa, reta e vazia. De um lado e do outro, verdadeiros bosques de laranjeiras -carreira após carreira estendia-se sem fim, até se perder de vista. Estavam carregadas de belas frutas maduras, pois era tempo de colheita. Minha admiração crescia à medida que quilômetro após quilômetro se escoava. De que maneira se conseguiria fazer a colheita? Lembrei-me de que, durante todas aquelas horas que eu andava, não tinha visto viva alma. Não havia ninguém nos laranjais, e eu não tinha passado por outro carro. Não se viam casas à margem da estrada. Eu estava sozinho em meio a uma floresta de laranjeiras. Afinal vislumbrei alguns trabalhadores colhendo as frutas. Longe da estrada, quase no horizonte, perdido no vasto ermo de frutas a colher, pude discernir pequenino grupo de colhedores trabalhando diligentemente. Quilômetros mais adiante vi outro grupo. Não posso garantir, mas tive a impressão de que a terra debaixo de mim tremia de gargalhadas silenciosas diante da impossibilidade da tarefa. Contudo os trabalhadores prosseguiam em sua tarefa de apanhar laranjas.O sol já descambava no ocaso e as sombras se alongavam quando, sem nenhum aviso, dobrei uma curva da estrada e vi uma placa com os dizeres: “Termina o condado negligenciado – Entra-se no condado interno”. O contraste foi tão chocante que mal tive tempo para tomar conhecimento do aviso. Tive que reduzir a marcha de meu carro, pois de repente me achava no meio de tráfego intenso. Pessoas, aos milhares, formigavam pela estrada e abarrotavam as calçadas. Ainda mais notável era a transformação que se observava nos laranjais, que ali também haviam, repletos de laranjeiras, porém agora, longe de estarem abandonados, estavam cheios do riso e do canto de multidões de gente. De fato, era o povo e não as laranjeiras que me chamavam a atenção – povo, e também casas.
Estacionei meu carro à margem da estrada e juntei-me à multidão. Vestidos chiques, sapatos bons, chapéus vistosos, ternos caros e camisas engomadas, me tornaram cônscio de minhas roupas de trabalho. Todo o mundo aparentava ar
festivo e jovial. “É feriado?” perguntei a uma senhora bem vestida. Ela ficou por um momento espantada, depois sorriu com ar de condescendência.”O senhor é de fora, não?” perguntou, e, antes que eu pudesse responder, prosseguiu: “Hoje é o Dia da Laranja”. Ela deve ter notado meu olhar de perplexidade, pois continuou: “É tão bom voltarmos dos trabalhos, um dia por semana, para apanhar laranjas”. “Mas não colhem laranjas todos os dias?” perguntei.
“Podemos fazê-lo a qualquer tempo”, respondeu. “Devemos estar sempre prontos para colher laranjas, porém o Dia da Laranja é que consagramos especialmente a esse mister.
Deixei-a e penetrei mais no meio das árvores. A maior parte das pessoas levava um livro, muito bem encadernado em couro, com bordas e letreiro dourados. Pude ler na beirada de um desses livros: “Manual do Apanhador de Laranjas”.
Daí a pouco, notei que em volta de uma das laranjeiras, tinha arranjado assentos dispostos em círculos ascendentes a partir do chão. Os assentos estavam quase todos ocupados, mas, assim que me aproximei do grupo, um cavalheiro sorridente e bem vestido me estendeu a mão e me levou para um lugar desocupado. Ali em volta da laranjeira eu via uma porção de pessoas. Uma destas se dirigia aos que estavam sentados, e, no momento em que eu chegava a meu lugar, todos ficaram em pé e começaram a cantar. O homem a meu lado me
deixou olhar com ele no seu livro de cânticos, que era entitulado: “Canções dos Laranjais. Cantaram durante algum tempo; o dirigente do canto abanava os braços com estranho fervor, exortando o povo nos intervalos entre os cânticos, a cantar mais forte. Fiquei cada vez mais perplexo. “Quando é que vamos começar a apanhar laranjas?” perguntei ao homem que me tinha cedido o livro de cânticos. “Não demora muito mais”, disse-me ele. “Gostamos de entusiasmar a todos primeiro. Além disso, queremos que as laranjas se sintam à vontade. Pensei que ele estivesse pilheriando, porém seu olhar era sério. Finalmente, o dirigente do canto entregou a palavra a um gorducho que leu dois períodos de seu exemplar, bastante manuseado, do Manual do Apanhador de Laranjas, e a seguir começou a fazer um discurso. Não entendi bem se ele se dirigia ao povo ou às laranjas. De relance olhei ao redor e vi diversos outros grupos, parecidos com o nosso, cada qual reunido em torno de uma laranjeira e ouvindo discursos de outros gorduchos.
Algumas árvores não tinham ninguém ao redor. “De quais pés colheremos?” perguntei ao homem a meu lado. Ele pareceu não entender, então apontei as laranjeiras em volta. “Nossa árvore é esta, respondeu ele, apontando a laranjeira ao redor da qual nos achávamos reunidos. “Mas nós somos muitos para colher de uma árvore só!” protestei. “Ora, há mais pessoas do que laranjas! “Mas nós não colhemos as laranjas”, explicou meu companheiro. “Nós não fomos vocacionados. Isso é serviço do Pastor Apanhador de Laranjas. Nós estamos aqui para apoiá-lo. Nós não fizemos o curso. Para ser bem sucedido em apanhar uma laranja, a pessoa precisa saber como a fruta pensa – psicologia larângica, não sabe? A maior parte das pessoas aqui (apontando para os assistentes) nunca freqüentou a Escola do Manual. “Escola do Manual?” sussurrei. “Que é isso?” ”É onde vão para estudar o Manual do Apanhador de Laranjas”, esclareceu meu informante. “É muito difícil; precisa de anos de estudo para entender”. “Então é assim?” murmurei. “Eu não fazia ideia de que fosse tão difícil apanhar laranjas”.
O gorducho, lá na frente, ainda estava fazendo seu discurso. Estava agitado; parecia que estava indignado a respeito de alguma coisa. Ao que pude entender, havia rivalidade entre outros grupos e o dele. A seguir, seu rosto brilhou. “Mas não estamos abandonados”, exclamou. “Temos muitos motivos para dar graças a Deus. Na semana passada, vimos três laranjas trazidas para o nosso balaio, e acabamos de liquidar toda a dívida das novas capas que ornam as almofadas em que vos achais sentados neste instante”.
“Que maravilha, não?” disse o homem a meu lado. Eu não respondi. Senti que alguma coisa devia estar profundamente errada. Tudo aquilo me parecia ser uma forma muito esquisita e confusa de se colher laranjas.O gorducho estava
atingindo o clímax de seu discurso. O ambiente estava tenso. E então, com um gesto muito dramático, ele estendeu a mão em direção a um dos galhos, apanhou duas laranjas e depositou-as na cesta que estava a seus pés. Os aplausos foram ensurdecedores. “Agora nós começamos a colher?” perguntei a meu companheiro. “Ora, que é que o senhor supõe que estamos fazendo?” perguntou ele. Todo este esforço, a que o senhor imagina que se destina? Há mais talento para colher laranjas, neste grupo, do que em todo o restante do
condado interno. Milhões de reais têm sido gastos com a laranjeira que está diante de nós”. Apressei-me a pedir desculpas. “Eu não estava censurando”, falei; “e tenho certeza de que o gorducho deve ser muito bom apanhador de laranjas, mas nós outros não podíamos experimentar também? Afinal de contas, há tantas laranjas que precisam ser colhidas. Todos nós temos duas mãos, e podíamos ler o Manual”. “Quando o senhor estiver no negócio tanto tempo quanto eu, compreenderá que não é assim tão simples”, respondeu ele. “Para começar, não temos tempo. Temos nosso serviço a fazer, nossa família a cuidar, nossa casa a zelar. Nós…”
Mas eu não estava escutando. A luz começava a raiar em minha frente. Fosse o que fosse essa gente, apanhadores de laranjas é que não eram. Para eles, a colheita de laranjas não passava de um tipo de divertimento de fim de semana. Experimentei mais alguns dos grupos ao redor das laranjeiras. Nem todos tinham padrões acadêmicos tão elevados para colhedores de laranjas. Alguns davam aulas sobre a matéria. Procurei contar-lhes das laranjeiras que eu tinha visto no condado negligenciado, mas não parecia que lhes interessava muito. “Ainda não colhemos todas as laranjas daqui”, era a resposta mais comum. Em meu sonho, o sol quase acabava de aparecer, e, cansado do barulho e movimento ao redor, entrei no carro e comecei a voltar pela mesma estrada.
Logo havia, em todos os lados, os vastos e abandonados laranjais. Havia, porém, modificações. Algo tinha acontecido na minha ausência. Por todos os lados o chão se cobria de frutas caídas. E, enquanto eu olhava, me pareceu que as árvores começavam a chover laranjas. Muitas delas jaziam apodrecendo. Senti que, em tudo isso, havia alguma coisa de muito estranho; e mais: sentia-me confuso ao lembrar-me de toda aquela gente no condado interno.
Então, ressoando através das árvores, veio uma voz que dizia: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores…”
E acordei, pois era apenas um sonho!
por John White
Publicado pela “Missão Novas Tribos do Brasil”.
Durante uma campanha de mordomia, um diácono da Igreja bateu à porta de uma viúva muito pobre: “Estou aqui para convidar irmã a assinar um cartão de compromisso para com a igreja, porém não sei se a irmã deve fazê-lo”.
“Mas por quê?”, perguntou a pobre mulher.
“Bem, parece-me que a irmã tem poucos recursos e precisa de todo o seu dinheiro para se manter”, respondeu o bem intencionado diácono.
“É verdade que tenho muito pouco”, respondeu a viúva, enquanto lágrimas desciam pela sua face, “mas o que tenho me foi dado por meu Pai Celestial. Não sou dona do pouco que possuo, pois devo tudo a Deus; pode ser que eu seja muito pobre, porém não sou pobre demais para dizimar. Ninguém é tão pobre que não possa dar o dízimo. Por favor, dê-me meu cartão de compromisso.”
Pobre demais para dizimar! Ao contrário da viúva pobre, muitas pessoas crêem sinceramente que a falta de muito dinheiro os escusa de darem o dízimo. Embora esta não seja a razão mais comum na omissão da mordomia fiel em nossas igrejas, temos encontrado muitos que pensam como o diácono da história acima relatada, em relação a si mesmos ou a outros crentes.
Há os que dizem: “Sou pobre demais para dizimar; tenho dívidas para pagar.” Se este é o seu caso, responda: Quanto você deve a Deus? Damos mais valor às nossas dívidas da terra do que à nossa dívida para com o céu? O mais provável é que a desorganização da sua vida financeira seja resultado de sua infidelidade na mordomia. Se o crente que tem dívidas pudesse crer nas promessas de Deus e começasse a dizimar, mais cedo do que pensa ele estaria com sua vida financeira equilibrada. Os testemunhos a esse respeito são abundantes e inequívocos. Assim, se um crente diz que tem dívidas, esse é um motivo a mais para que ele se torne um fiel dizimista.
“Preciso sustentar minha família; sou pobre demais para dizimar”, você diz. Certo! Você deve dar abrigo, alimento e instrução à sua família, mas não se esqueça de que muito mais importante do que isto é dar à sua família oportunidade de receberas bênçãos de Deus e crescer espiritualmente, e isso só ocorre na medida da sua fidelidade como mordomo cristão. A mordomia do cristão começa com o dízimo. Dê para seus filhos uma prova viva da sua fé em Deus, de sua obediência à Palavra de Deus, do valor do Reino de Deus em sua vida, e você verá, ao longo dos anos, que isto será muito mais importante e necessário para os seus filhos do que todos os bens que você puder deixar-lhes como herança.
Talvez você se desculpe: “Sou muito jovem ainda, não tenho bom salário, dependo de minha família; sou pobre demais para dizimar.” Se você espera ter uma vida financeira estável para ser dizimista, jamais o será, pode crer. Comece agora a aprender a confiar em Deus. Você não tem um bom ordenado, mas recebe o suficiente para suas despesas pessoais, não é verdade? Experimente dar o dízimo de tudo o que lhe vier as mãos. Você ficará surpreso com o modo pelo qual o dinheiro vai ser multiplicado pela graça de Deus em suas mãos. O mesmo se pode dizer a respeito de senhoras crentes cujos maridos são incrédulos e se opõem, por vezes até violentamente, a que elas contribuam. Essas irmãs também podem separar o dízimo daquele dinheiro que recebem para seu uso pessoal. Se elas forem fiéis a Deus no dízimo, estarão com isto demonstrando a fé viva que obtém vitórias extraordinárias pela oração. As mulheres cristãs que têm alcançado as maiores vitórias espirituais no seu lar são precisamente aquelas que ficam firmes e sinceras em sua fé.
Seja como for, ao crente que não tem um bom salário, mas ama a causa e deseja ser um fiel dizimista, Deus sempre mostra o meio adequado.
Há ainda os que dizem: “Os que têm mais que contribuam; sou pobre demais para dizimar.” Embora seja mais raro, este raciocínio também tem impedido a muitos de abrirem as janelas do céu sobre as suas próprias vidas. Aliás, esta evasiva pode até estar revelando um coração mesquinho e cheio de inveja. Portanto, se algum crente diz isso, deve ser objeto de misericórdia e de orações, porque a sua vida espiritual está realmente em perigo. Satanás está conseguindo instilar a peçonha do egoísmo e da inveja em tal coração.
Sua dádiva é uma expressão do seu caráter, que somente você pode oferecer. Sua dádiva pode ser pequena em números, mas se for o seu melhor, será enorme em seus resultados para a sua vida e para o Reino de Deus. Na realidade, os crentes que alegam pobreza ou falta de recursos ideais ou ainda falta de elementos contábeis para calcular e entregar seus dízimos, estão revelando uma pobreza muito mais profunda. Pode ser uma pobreza de devoção. A quem estamos adorando com nossos bens? A pessoa que gasta excessivamente consigo mesma está adorando o seu próprio EU. E, convenhamos, se alguém adora a si mesmo, esta é uma devoção muito pobre. A Bíblia ensina que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”. O amor ao dinheiro como um fim em si mesmo revela uma total inversão de valores na vida. O dízimo é o mais eficiente antídoto contra a usura e a ambição.
Pode haver também uma pobreza de visão. A pessoa que diz “sou pobre demais para dizimar” não se considera a si mesma como responsável pelo destino do mundo. Não compreende que foi a ela que Jesus disse: “Ide por todo o mundo e fazei discípulos de todas as nações.” Sua visão não vai além da sua própria pessoa. É realmente uma visão pobre demais.
Certamente a expressão “sou pobre demais para dizimar” revela pobreza de fé. Um cristão medroso jamais será dizimista, não importa o volume do dízimo que ele sonega a Deus. Ele insiste em andar por vista e não por fé. As promessas do Senhor não são reais para ele. Ele quer que elas se cumpram antes de aventurar-se. “Credes em Deus, credes também em Mim”, diz o Senhor. Se você crê em Deus, o Reino de Deus passa a ser importante para você e as promessas de Deus passam a ser reais para você. A causa do Senhor será a sua causa. Se você puder crer de coração, não terá dificuldade em dizimar. A fé encontra sua expressão através da dádiva de amor.
“Pobre demais para dizimar…” Alguns cristãos eram fiéis dizimistas enquanto viviam de um pequeno salário. E tinham alegria espiritual. Tinham fervor. Quando a prosperidade material chegou, acharam que o dízimo seria grande demais. Primeiro fixaram um valor mensal da sua contribuição, que não acompanhou a inflação. Depois deixaram de contribuir. Perderam a alegria espiritual. Perderam o fervor. Perderam os filhos para o mundo e não sabem por quê. Deixaram de ser bênçãos para o Reino de Deus e para o mundo. Tornaram-se espiritualmente miseráveis. Pobres demais para dizimar…
Deixe Deus provar na sua vida que Ele cumpre suas promessas. Deixe Deus abençoar você e sua família. Deixe Deus enriquecê-lo espiritualmente e prover tudo o que é necessário para a sua vida, com abundância. Abra uma clareira para a fé no cipoal das suas preocupações terrenas, para ver o mundo maravilhoso do amor, da compaixão pelos perdidos, do louvor e gratidão a Deus.
Permita que toda a sua dádiva a Deus seja de amor. Não aceite as “razões da carne”. Deixe as janelas do céu se abrirem para você.
“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança” (Malaquias 3:10).
Tradução e adaptação de “Demasiado pobre para dizimar”
Publicação da JUERP – Junta de Educação Religiosa da CNBB
Por Jaime Kemp
Esta é uma história verídica.
A história do campo de abacaxis aconteceu na Nova Guiné. Ela durou sete anos. É uma ilustração profunda de um princípio bíblico básico aplicado. Ao ler este relato original, você descobrirá que ele é um exemplo clássico do tipo de lutas que cada um de nós enfrenta até que aprenda a aplicar o princípio de renúncia aos direitos pessoais.
“Minha família e eu trabalhamos com pessoas bem no meio da selva”. Um dia, resolvi levar para aquela região alguns abacaxis. O povo já tinha ouvido falar de abacaxis. Alguns já os haviam provado, mas não tinham meios de consegui-los. Busquei então, mais de cem mudas de uma outra missão. Contratei um homem da aldeia, e ele plantou todas as mudas. Eu o paguei pelo serviço prestado (sal e diversas outras coisas que necessitava) e durante dias ele trabalhou. Precisei ter muita paciência até que as pequenas mudas de abacaxi se tornassem arbustos grandes e produzissem abacaxis. Demorou uns três anos. Lá no meio da selva, você às vezes tem saudades de comer frutas. Não é fácil conseguir frutas e verduras frescas.
Finalmente, no terceiro ano, pudemos ver surgir abacaxis que davam “água na boca”, e só estávamos esperando o Natal chegar, porque é nesta época que eles ficam maduros. No dia de Natal minha esposa e eu saímos ansiosos para ver se algum abacaxi já estava pronto para ser tirado do pé, mas tivemos uma surpresa desagradável após a outra. Não conseguimos colher nem um só abacaxi. Os nativos haviam roubado todos! Eles os roubavam antes de ficarem maduros. É costume deles, roubar antes que as frutas amadureçam e assim o dono não as possa colher.
E aqui estou eu, um missionário, ficando com raiva dessas pessoas. Missionários não devem ficar com raiva, vocês todos sabem disto, mas fiquei e eu disse a eles: “rapazes, eu esperei três anos por estes abacaxis. Não consegui colher um único deles. Agora outros estão amadurecendo, se desaparecer mais um só destes abacaxis, fecharei a minha clínica”.
Minha esposa dirigia a clínica. Ela dava gratuitamente todos os remédios àquela gente. Eles não pagavam nada! Nós estávamos nos desgastando tentando ajudá-los, cuidando de seus doentes e salvando as vidas de suas crianças. Os abacaxis ficaram maduros e um por um foi roubado! Então achei que deveria me defender deles. Eu simplesmente não podia deixar que fizessem comigo o que queriam… Mas a verdadeira razão não era esta.
Eu era uma pessoa muito egoísta, que queria comer abacaxis. Fechei a clínica. As crianças começaram a adoecer, não podiam evitar, a vida era bastante difícil naquela região. Vinham pessoas com gripe, tossindo e pedindo remédio e nós dizíamos: “Não! Lembrem-se que vocês roubaram nossos abacaxis”. “Não fui eu!” – eles respondiam – “foram os outros que fizeram
isso”. E continuaram tossindo e pedindo. Não conseguimos manter mais a nossa posição; reabrimos a clínica. Abrimos a clínica e eles continuaram roubando nossos abacaxis. Fiquei novamente louco raiva e resolvi fechar o armazém. No armazém eles compravam fósforos, sal, anzóis, etc. Antes eles não tinham essas coisas, por isso não iriam morrer sem elas. Comuniquei minha decisão: “vou fechar o armazém, vocês roubaram mais abacaxis”.
Fechamos o armazém e eles começaram a resmungar: “vamos nos mudar daqui porque não temos mais sal. Se não há mais armazém, não há vantagem para ficarmos aqui com esse homem. Podemos voltar para nossas casas na selva” e se mudaram para a selva.
E ali estava eu, sentado comendo abacaxis, mas sem pessoas na aldeia, sem ministério, sem condições de aprender a língua para traduzir a Bíblia. Falei com minha esposa: “Podemos comer abacaxis nos Estados Unidos, se é só o que temos para fazer”.
Um dos nativos passou por ali, e eu lhe pedi para avisar que na segunda-feira abriria novamente o armazém. Pensei e pensei em como resolver o caso dos abacaxis… Meu Deus! Deve haver um jeito o que posso fazer?
Chegou o tempo de minha licença e eu aproveitei para ir a um Curso Intensivo para Jovens. Lá ouvi que deveríamos entregar tudo a Deus. A Bíblia diz que se você der você terá; se quiser guardar para si, perderá tudo. Dê todas as suas coisas a Deus e Ele zelará para que você tenha o suficiente.
Este é um princípio básico. Pensei o seguinte: “amigo, você não tem nada a perder. Vou entregar o caso dos abacaxis a Deus…” Eu sabia que não era fácil fazer um sacrifício! Sacrificar significa você entregar algo que você gosta muito, mas eu decidi dar a plantação de abacaxis a Deus e ver o que Ele faria. Assim, saí para plantação, à noite e orei: “Pai, o Senhor está
vendo estes pés de abacaxis? Eu lutei muito para colher alguns. Discuti com os nativos, exigi meus direitos. Fiz tudo errado, estou compreendendo agora. Reconheço o meu erro, e quero entregar tudo ao Senhor. De agora em diante, se o Senhor quiser me deixar comer algum abacaxi, eu aceito caso contrário, tudo bem, não tem problema.” Assim, eu dei os abacaxis a Deus e os nativos continuaram roubando-os como de costume. Pensei com meus botões: “Deus não pôde controlá-los” Então um dia, eles vieram falar comigo: “Tu-uan (que significa estrangeiro) o senhor se tornou cristão, não é verdade?” Eu estava
pronto para dizer: “Escute aqui, eu sou cristão já há vinte anos!”, mas em vez disto eu perguntei: “por que vocês estão perguntando isso?” “Porque o senhor não fica mais com raiva quando roubamos seus abacaxis”, eles responderam. Isso me abriu os olhos. Eu finalmente estava vivendo o que estivera pregando a eles. Eu lhes tinha dito que amassem uns aos outros, que fossem gentis, e sempre exigia os meus direitos e eles sabiam disso. Depois de algum tempo alguém perguntou: “Por que o senhor não fica mais com raiva?” “Eu passei a plantação adiante”, respondi, “ela não pertence mais a mim, por isso vocês não estão mais roubando os meus abacaxis e eu não tenho motivos para ficar com raiva”. Um deles arriscando perguntou: “para quem o senhor deu a plantação?” então eu disse: “Dei a plantação para Deus”. “A Deus?” – exclamaram todos – “ele não tem abacaxis onde mora!” “Eu não sei se ele tem ou não abacaxis onde mora”, respondi – “eu simplesmente lhe dei os abacaxis”.
Eles voltaram para a aldeia e disseram para todos: “vocês sabem de quem estamos roubando os abacaxis? Tu-uam os deu a Deus” e começaram a pensar sobre o assunto… E combinaram entre si: “Se os abacaxis são de Deus, agora não devemos mais roubá-los” Eles tinham medo de Deus.
Os abacaxis novamente começaram a amadurecer. Os nativos vieram para me avisar: “Tu-uan, seus abacaxis estão maduros”. “Não são meus, eles pertencem a Deus” – respondi. “É melhor o senhor comer, pois vão apodrecer”. Então
colhi alguns, e deixei também para os nativos.
Quando me sentei à mesa com minha família para comê-los, eu orei: “Senhor, estamos comendo seus abacaxis, muito obrigado por me dar alguns”.
Durante todos os anos em que estive com os nativos, eles estiveram me observando, e prestando atenção às minhas palavras. Eles viam que as duas coisas não combinavam. E, quando eu comecei a mudar, eles também mudaram. Em
pouco tempo, muitos se tornaram cristãos.
O princípio da entrega a Deus, estava funcionando realmente. Eu quase não acreditei… “Mais tarde, passei a entregar outras coisas para Deus”.
*Extraído do livro A Verdadeira Felicidade (Edição Esgotada) – Jaime Kemp – Editora Sepal