
“Havia numa cidadezinha dos Estados Unidos uma igreja batista conhecida pelo seu rigor ético. Seus membros seguiam rigorosamente os mandamentos e os costumes que a tradição sacralizara. Não participavam de bingos, não fumavam e não bebiam – atos que julgavam artimanhas do diabo para levar as almas à perdição. Havia naquela mesma cidade uma cervejaria. Não é preciso dizer que a dita cervejaria estava sempre presente nos inflamados sermões do pastor, que a acusava de igreja de Satanás. Aconteceu, entretanto, que por razões não esclarecidas, a igreja foi surpreendida com algo impossível de ser imaginado: a cervejaria lhe fez uma doação de 500.000 dólares. Criou-se imediatamente um problema. Se a doação tivesse sido de 500 dólares teria sido fácil rejeitá-la. Quinhentos dólares não é tanto dinheiro assim. Mas 500.000 … O pastor convocou imediatamente uma assembléia dos membros da igreja, porque as igrejas batistas são democráticas. A assembleia se dividiu em dois grupos: aqueles que diziam que o dinheiro tinha de ser rejeitado por ser dinheiro de Satanás e os outros que falavam sobre as coisas boas que poderiam ser feitas com aquele dinheiro – uma creche, ou uma escola, ou um abrigo para velhinhos, ou um novo órgão. Depois de prolongados debates que entraram madrugada adentro, a assembléia, por voto unânime, aprovou a seguinte resolução: ‘A assembléia da Primeira Igreja Batista resolve aceitar a doação de 500.000 dólares feita pela cervejaria Dubweiser na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus’”.
(IN: O SAPO QUE QUERIA SER PRÍCIPE, Rubem Alves, Planeta, 2009, p. 152)


