Frase do Dia

3 10 2009

dois bebes

“Quem não consegue mais ouvir o irmão,
em breve também não conseguirá mais ouvir a Deus”.

Dietrich Bonhoeffer, em Gemeinsames Leben





Frase do Dia

28 04 2009

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“Deus, que talha as cruzes, também faz os ombros,
e ninguém o iguala na arte das proporções”.

Jean Salem





POR QUE NÃO CUMPRIMOS NOSSAS PROMESSAS?

31 12 2008


“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te,
e volta à prática das primeiras obras”
Apocalipse 2:5a

Ao chegar ao final de mais um ano, é provável que muitos de nós ao olharmos para trás enxerguemos facilmente sonhos não realizados e metas não alcançadas. É possível que, ao invés de progresso, tenhamos até regredido e colocado nosso relacionamento com Deus em segundo plano.
Iniciamos o ano prometendo a nós mesmos – e até mesmo a Deus – orar mais, ler mais a Bíblia e trabalhar ativamente na obra do Senhor. Mas nosso histórico anual deixa claro que não foi exatamente assim que aconteceu…
Alguns estão vivendo a mesma experiência de Ivan Lins e Victor Martins:

“Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido.”

Só que esse é o problema: muitas vezes contamos com nossa própria força ao invés de contarmos com a ajuda do Senhor. Quando contamos apenas conosco, o resultado são machucões, rebeliões, barcos virados e muita dor. Sozinhos, não vamos muito longe. Precisamos da ajuda do Senhor para carregar nosso fardo pesado. Precisamos do Seu toque de poder e graça para sustentar a nossa vida de devoção. As promessas que fazemos não são suficientes para garantir um ano de fidelidade. É a nossa dependência de Deus e persistência em segui-Lo – custe o que custar – que faz toda a diferença.
É tempo de renovar os votos, mas isso não deve ser apenas uma tradição de fim de ano, mas o desejo ardente de um coração sedento pelo Deus Vivo.
Diga ao Senhor: “Começar de novo e contar ConTigo, vai valer a pena ter amanhecido!”
Que no novo ano que se aproxima você volte à prática das primeiras obras e ande diariamente firmado na Rocha Eterna.
Feliz Ano Novo!

Ebeneser Nogueira,  na Revista Rumo.





Pai Nosso

16 12 2008

Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,

Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,

Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,

Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no vôo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,

Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dessemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego e o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,

Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,

E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,

Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,

Amemos.
 
Frei Betto





Frase do Dia

9 12 2008

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“O cristão tem grande vantagem sobre os demais homens, não por ser menos decaído do que eles, nem por ser menos condenado a viver no mundo caído, mas por saber que é um homem caído num mundo caído”.
C. S. Lewis





Falso Véu

4 12 2008

 

 

 Para Charles, que entende o significado de Graça.

 

 

 

 

 

 

Composição: Guilherme Kerr Neto e João Alexandre

Quem é que pode te garantir
Que este teu jeito
De servir a Deus
Seja o melhor,
Seja o mais leal,
Um padrão acima do normal?

De onde vem tanta presunção
De ser mais santo,
De ser capaz
De agradar a Deus,
Crente nota dez,
Superior acima dos fiéis?

Pobre este entendimento
Que não vem de céu,
Fraco discernimento,
Frágil, falso véu!
Tenta encobrir em vão
Teu lado animal;
Luta, perseguição,
Tanto desejo mau…
Confusão…
Divisão…

Se alguém quer mesmo
Agradar a Deus,
Saber das coisas,
Compreender;
Mostre em mansidão
De seu caminhar,
Ser gentil no gesto e no olhar.
E a diferença que existe em nós,
Poeira vinda do mesmo chão,
É somente o amor
Que nos alcançou,
Graça imensa,
Imenso perdão.
É somente o amor
Que nos alcançou,
Graça imensa,
Imenso favor.





Frase do Dia

3 12 2008


“Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança,
e o homem lhe retribuiu o favor”.
Voltaire





Sobre xadrez e a soberania divina

26 11 2008

Para Pablo, o melhor enxadrista que conheço.

No colégio, sentia orgulho da minha habilidade no jogo de xadrez. Filiei-me ao clube de xadrez e, na hora do almoço, sempre me encontrava sentado a uma mesa com outros nerds, estudando minuciosamente livros do tipo Classic king pawn openings [Aberturas clássicas com peões do rei]. Estudei técnicas, venci a maioria das partidas e deixei o jogo de lado aos vinte anos. Então, em Chicago, encontrei um jogador de xadrez que aperfeiçoava sua capacidade desde o tempo do colégio. Quando jogamos algumas partidas, vi o que era jogar contra um mestre. Qualquer ataque clássico que eu tentava, ele contra-atacava com uma defesa clássica. Se arriscava técnicas menos ortodoxas, ele incorporava minhas ousadas incursões em suas estratégias vencedoras. Até mesmo os erros aparentes ele transformava em vantagens. Eu comia um peão desprotegido e, em seguida, descobria que ele o havia plantado ali como isca sacrificial e parte de um grande plano. Embora tivesse total liberdade de fazer qualquer movimento que desejasse, logo cheguei à conclusão de que minhas estratégias de nada valiam. Sua superioridade fazia com que meus propósitos inevitavelmente acabassem servindo aos dele.

Talvez Deus opere em noso universo, criação dele, de forma parecida. Ele nos garante liberdade para nos rebelarmos contra o Seu plano original, mas quando agimos assim, acabamos “ironicamente” servindo a Seu alvo final de restauração. Se aceito esse plano – um imenso passo de fé, confesso – , ele transforma minha perspectiva das coisas boas e más que acontecem. As coisas boas, como saúde, talento e dinheiro, posso apresentar a Deus como ofertas para Seu proveito. E as coisas más – incapacidade, pobreza, problemas familiares, fracassos – também podem ser “redimidas” como os próprios instrumentos que me levarão a Deus.

Aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância” (Fil.4:11), escreveu o apóstolo Paulo na prisão. Naturalmente, ele preferia o conforto em lugar da agonia e a saúde em lugar da fraqueza (sua oração pedindo a Deus que tirasse  o “espinho na carne” prova isso), mas passou a acreditar que o Senhor poderia usar tanto as circunstâncias boas quanto as ruins para realizar a Sua vontade.

Mais uma vez, algum cético poderia me acusar de flagrante racionalização, argumentando o contrário para que as evidências provem uma conclusão anterior. Sim, exatamente. Um cristão começa com a conclusão de que um Deus bom restaurará a criação ao Seu plano original e vê toda a história como um processo para esse fim. Quando um Grande Mestre joga contra um enxadrista amador, a vitória é certa, seja qual for a configuração do tabuleiro.

Philip Yancey, em O Deus (in)visível, Editora Vida, 2001, pág. 254-255.





Para pensar…

10 11 2008

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A Cabana

3 11 2008

- Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa. Tenho seguidores que foram assassinos e muitos que eram hipócritas. Há banqueiros, jogadores, americanos e iraquianos, judeus e palestinos. Não tenho desejo de torná-los cristãos, mas quero me juntar a eles em seu processo para se transformarem em filhos e filhas de papai, em irmaõs e irmãs, em meus amados.

-Isso significa que todas as estradas levam a você?

- De jeito nenhum – sorriu Jesus enquanto estendia a mão para a porta da oficina. – A maioria das estradas não leva a lugar nenhum. O que isso significa é que eu viajarei por qualquer estrada para encontrar vocês (…).

A Cabana, William P. Young, Editora Sextante, pág. 168-169.





Amor Incondicional

16 08 2008

 

Há músicas que nos marcam, e que falam conosco no momento certo e da maneira certa. Foi assim com essa canção do Jorge. Cativou-me e embalou-me o coração como há muito uma canção não fazia.

 

 Amor Incondicional

(Jorge Camargo)

Eu e você respondemos ao amor a nós demonstrado,
Às palavras de carinho, ao abraço afetuoso,
Gestos comuns entre humanos.
Eu e você conhecemos só o amor baseado na troca,
Que perdura se há resposta aos padrões mais elevados
Que jamais atingiremos.

Amor na versão normal
Que costumamos ver como algo tão banal.
A fonte de todo o bem, duro é ter que dizer,
Vai muito mais além do amor convencional.

Deus lá do Céu revelou-se,
Com amor desmedido e inflamado,
Cuja chama abraça o mundo depurando seus desmandos.
Com graça espantosa e doce
O próprio Deus encarnou-se,
Puro amor que não tem paralelo,
Que se doa e que perdoa a mais funda e grave mágoa
E que das cinzas renasce.

Amor incondicional
Que não podemos ver com o olho natural,
Amor, que primeiro amou, que fez por onde amar
A quem sequer notou, amor incondicional.





A FESTA DE BABETTE: Uma história

31 07 2008

Karen Blixen, dinamarquesa de nascimento, casou-se com um barão e passou os anos de 1914-31 administrando uma plantação de café na África Britânica, no Leste (seu livro Out of Africa fala daqueles anos). Depois de um divórcio, ela voltou à Dinamarca e começou a escrever em inglês com o pseudônimo Isak Dinesen. Uma de suas histórias, “A festa de Babette“, tornou-se um clássico respeitado depois de ser transformado em filme na década de 80.
Dinesen situou sua história na Noruega, mas os cineastas dinamarqueses mudaram o local para uma pobre aldeia de pescadores no litoral da Dinamarca, uma localidade de ruas lamacentas e cabanas cobertas de palha. Neste ambiente triste, um ministro de barbas brancas liderava um grupo de crentes de uma austera seita luterana.
Os poucos prazeres mundanos que pudessem tentar um camponês em Norre Vosburg eram condenados por essa seita. Todos usavam roupas pretas. Sua alimentação consistia em bacalhau cozido e uma papa feita de pão escaldado em água enriquecida com um borrifo de cerveja. Aos sábados, o grupo se reunia e cantava hinos a respeito de “Jerusalém, meu lar feliz, nome sempre querido para mim“. Eles haviam direcionado suas bússolas para a Nova Jerusalém, e a vida na terra era apenas tolerada como um meio de chegar lá.
O velho pastor, um viúvo, tinha duas filhas adolescentes: Martine, chamada assim por causa de Martinho Lutero, e Philippa, por causa do discípulo de Lutero, Philip Melanchton. Os habitantes da vila costumavam ir à igreja apenas para deliciar seus olhos olhando para as duas, cuja radiante beleza não podia ser ocultada, apesar dos melhores esforços das duas irmãs.
Martine captou os olhares de um jovem e arrojado oficial da cavalaria. Quando ela, obstinadamente, resistiu às suas investidas — afinal, quem cuidaria de seu velho pai? — ele foi embora para se casar com uma dama de companhia da rainha Sofia.
Além de ser muito bela, Philippa também possuía a voz de um rouxinol. Quando ela cantava a respeito de Jerusalém, visões reluzentes da cidade celestial pareciam surgir. E aconteceu que Philippa conheceu o mais famoso cantor de ópera daquele tempo, o francês Achille Papin, que estava passando uns dias no litoral por causa da saúde. Enquanto caminhava pelos poeirentos caminhos de uma cidade atrasada, Papin ouviu, para sua grande admiração, uma voz digna da Grand Opera de Paris.
Deixe-me ensiná-la a cantar de maneira certa“, ele insistiu com Philippa, “e toda a França vai cair a seus pés. A realeza vai fazer fila para conhecê-la, e você vai andar de carruagem puxada por cavalos para jantar no magnífico Café Anglais “. Lisonjeada, Philippa consentiu em tomar algumas lições, mas apenas algumas. Cantar a respeito do amor fê-la ficar nervosa, a agitação dentro dela a perturbou mais ainda e, quando uma ária de Don Giovanni acabou com ela sendo enlaçada pelos braços de Papin, os lábios dele roçando os seus, ela soube, sem a menor sombra de dúvida, que estes novos prazeres tinham de ser abandonados. Seu pai escreveu um bilhete desisitindo de todas as futuras lições, e Achille Papin voltou a Paris, tão triste como se tivesse perdido um bilhete de loteria premiado.
Passaram-se quinze anos, e muita coisa mudou na vila. As duas irmãs, agora solteironas de meia-idade, tentaram continuar com a missão do falecido pai, mas, sem a sua séria liderança, a seita estilhaçou-se. Um irmão tinha queixas de outro por causa de algum negócio. Espalharam-se boatos de que havia um caso de sexo ilícito há trinta e dois anos envolvendo duas pessoas da comunidade. Duas velhas senhoras não se falavam há uma década. Embora a seita ainda se reunisse aos domingos e cantasse velhos hinos, apenas um punhado de pessoas se davam ao trabalho de ir, e a música havia perdido o seu entusiasmo. Apesar de todos esses problemas, as duas filhas do ministro continuaram fiéis, organizando os cultos e escaldando pão para os anciãos desdentados da vila.
Uma noite, chuvosa demais para que alguém se aventurasse pelas ruas lamacentas, as irmãs ouviram fortes batidas na porta. Quando a abriram, uma mulher caiu desmaiada. Elas a reanimaram e descobriram que não falava dinamarquês. Ela lhes entregou uma carta de Achille Papin. Ao ver aquele nome Philippa enrubesceu, e sua mão tremia enquanto ela lia a carta de apresentação. O nome da mulher era Babette. Ela havia perdido o marido e filho durante a guerra civil na França. Com a vida em perigo, tivera de fugir, e Papin lhe arranjara uma passagem em um navio com esperança de que essa aldeia lhe demonstrasse misericórdia. “Babette sabe cozinhar“, dizia a carta.
As irmãs não tinham dinheiro para pagar Babette e, antes de mais nada, não sabiam se deviam ter uma empregada. Desconfiaram de sua arte — os franceses não comiam cavalos e rãs? Mas, por meio de gestos e rogos, Babette amoleceu o coração delas. Ela poderia fazer alguns serviços em troca de quarto e comida.
Durante os doze anos seguintes Babette trabalhou para as irmãs. A primeira vez que Martine mostrou-lhe como cortar um bacalhau e cozinhar a papa, as sobrancelhas de Babette se elevaram e o seu nariz enrugou um pouco, mas nunca questionou suas tarefas. Ela alimentava os pobres na cidade e assumiu todas as tarefas domésticas. Até ajudava nos cultos de domingo. Todos tinham de concordar que Babette trouxe nova vida à estagnada comunidade.
Uma vez que Babette nunca se referia ao seu passado na França, foi uma grande surpresa para Martine e Philippa quando, um dia, depois de doze anos, ela recebeu a primeira carta. Babette a leu, viu as irmãs de olhos arregalados e anunciou de maneira natural que uma coisa maravilhosa lhe havia acontecido. Todos os anos um amigo em Paris renovava o número de Babette na loteria francesa. Nesse ano, o seu bilhete fora premiado. Dez mil francos!
As irmãs apertaram a mão de Babette, parabenizando-a, mas lá no fundo seus corações desfaleceram. Sabiam que logo ela iria embora.
A sorte grande de Babette na loteria coincidiu com o momento em que as irmãs estavam discutindo sobre a celebração de uma festa em homenagem ao centenário do nascimento de seu pai. Babette lhes fez um pedido. Disse que em doze anos nunca lhes pedira nada. Elas assentiram. “Agora, porém, tenho um pedido: Gostaria de preparar uma refeição para o culto de aniversário. Quero cozinhar uma verdadeira refeição francesa“.
Embora as irmãs tivessem sérias dúvidas a respeito desse plano, Babette, sem nenhuma sombra de dúvida, estava certa de que nunca havia pedido nenhum favor em doze anos. Que escolha elas tinham a não ser concordar?
Quando o dinheiro chegou da França, Babette fez uma rápida viagem para providenciar os arranjos para o jantar. Nas semanas que se seguiram à sua volta, os habitantes de Norre Vosburg foram surpreendidos com a visão de vários barcos ancorados descarregando provisões para a cozinha de Babette. Trabalhadores empurravam carrinhos de mão cheios de gaiolas com pequenas aves. Caixas de champanhe — champagne! — e vinho logo se seguiram. A cabeça inteira de uma vaca, vegetais frescos, trufas, faisões, presunto, estranhas criaturas que viviam no mar, uma imensa tartaruga ainda viva mexendo a cabeça como a de uma cobra de um lado para o outro — tudo isso acabava na cozinha das irmãs agora firmemente dirigida por Babette.
Martine e Philippa, alarmadas com os preparativos que mais pareciam de bruxa, explicavam a embaraçosa situação aos membros da seita, agora apenas onze pessoas, velhas e grisalhas. Todas manifestavam simpatia com elas. Depois de alguma discussão concordaram em comer a refeição francesa, refreando os comentários para que Babette não entendesse mal. Línguas haviam sido feitas para louvor e ação de graças, e não para satisfazer gostos exóticos.
Nevava no dia 15 de dezembro, o dia do jantar, iluminando a aldeia obscura com um brilho branco. As irmãs ficaram satisfeitas ao saber que um hóspede inesperado se juntaria a elas: a senhora Loewenhielm, de noventa anos de idade, estaria acompanhada de seu sobrinho, o oficial de cavalaria que havia cortejado Martine tempos atrás, e agora era general no palácio real.
Babette havia conseguido emprestadas louças e cristais suficientes, e havia enfeitado o recinto com velas e coníferas. A mesa estava linda. Quando a refeição começou todos os habitantes da aldeia se lembraram de seu pacto e ficaram mudos, como tartarugas ao redor de um lago. Apenas o general comentou a comida e a bebida. “Amontillado!“, ele exclamou quando levantou o primeiro copo. “É o mais fino Amontillado que já provei.” Quando experimentou a primeira colherada de sopa, o general poderia jurar que era sopa de tartaruga, mas como se acharia tal coisa no litoral da Jutlândia?
Incrível!“, disse o general quando experimentou o próximo prato. “É Blinis Demidoff!” . Todos os outros convivas, as faces franzidas por profundas rugas, estavam comendo as mesmas delicadezas raras sem nenhuma expressão ou comentários. Quando o general entusiasmado elogiou o champanhe, um Veuve Cliquot 1860, Babette ordenou ao seu ajudante de cozinha que mantivesse o copo do general cheio o tempo todo. Apenas ele parecia apreciar o que estava diante dele.
Embora ninguém mais falasse a respeito da comida ou da bebida, gradualmente o banquete operou um efeito mágico sobre os habitantes da aldeia. O seu sangue esquentou. Suas línguas se soltaram. Eles falaram dos velhos dias quando o pastor estava vivo e do Natal em que a baía congelou. O irmão que havia enganado o outro nos negócios finalmente confessou, e as duas mulheres que tinham uma rixa acabaram conversando. Uma mulher arrotou, e o irmão ao seu lado disse sem pensar: “Aleluia!”.
O general, entretanto, não conseguia falar de nada além da comida. Quando o ajudante da cozinha trouxe o coup de grâce, codornizes preparadas em Sarcophage, o general exclamou que vira tal prato apenas em um lugar na Europa, no famoso Café Anglais em Paris, o restaurante que já fora célebre por ter uma mulher como chefe-de-cozinha.
Cheio de vinho, o apetite satisfeito, incapaz de se conter, o general levantou-se para fazer um discurso. “A misericórdia e a verdade, meus amigos, se encontraram“, ele começou. “A justiça e a bem-aventurança se beijaram.” E, então, o general fez uma pausa, “pois — conforme comenta Isak Dinesen — ele tinha o hábito de fazer os seus discursos com cuidado, consciente do seu propósito, mas aqui, no meio da simples congregação do pastor, foi como se toda a figura do General Loewenhielm, com seu peito coberto de condecorações, fosse porta-voz de uma mensagem que tinha de ser transmitida“. A mensagem do general era graça.
Embora os irmãos e as irmãs da seita não compreendessem totalmente o discurso do general, naquele momento “as vãs ilusões desta terra se dissolveram diante de seus olhos como fumaça, e eles viram o universo como ele realmente era“. O pequeno grupo se desfez e saiu para uma cidade coberta de neve brilhante sob um céu recoberto de estrelas.
A “Festa de Babette” termina com duas cenas. Lá fora, os velhos se dão as mãos ao redor da fonte e cantam entusiasmados os velhos hinos da fé. É uma cena de comunhão: a festa de Babette abriu o portão e a graça entrou silenciosamente. Eles sentiram, acrescenta Isak Dinesen, “como se realmente tivessem os seus pecados lavados e tornados brancos como a lã, e nessas vestes inocentes recuperadas faziam brincadeiras como cordeirinhos travessos“.
A cena final acontece lá dentro, na bagunça de uma cozinha cheia até o teto de louça para lavar, panelas engorduradas, conchas, carapaças, ossos cartilaginosos, engradados quebrados, cascas de vegetais e garrafas vazias. Babette senta-se no meio da bagunça, parecendo tão desgastada quanto na noite em que chegara doze anos antes. Subitamente, as irmãs percebem que, de acordo com o seu voto, ninguém havia falado com Babette a respeito do jantar.
— Foi um jantar e tanto, Babette — Martine diz para começar. Babette parece distante. Depois de um minuto ela responde: — Eu era a cozinheira do Café Anglais.
—Todos nós vamos-nos lembrar desta noite quando você tiver voltado para Paris, Babette — Martine acrescenta, como se não a tivesse ouvido.
Babette lhes diz que não vai voltar para Paris. Todos os seus amigos e parentes ali foram mortos ou feitos prisioneiros. E, naturalmente, seria muito caro voltar para Paris.
— Mas e os dez mil francos? — as irmãs perguntam.
Então Babette deixa cair a bomba. Ela havia gasto tudo, cada franco dos dez mil que ganhara, na comida que haviam acabado de devorar. — Não se assustem — ela lhes diz. — É isso que um jantar adequado para doze custa no Café Anglais.
No discurso do general, Isak Dinesen não deixa dúvidas de que ela escreveu “A Festa de Babette” não apenas como uma história a respeito de uma excelente refeição, mas como uma parábola da graça: um presente que custa tudo para o doador e nada para o que recebeu. Isto é o que o General Loewenhielm disse aos carrancudos paroquianos reunidos ao redor da mesa de Babette:
Todos nós fomos informados de que a graça deve ser buscada no universo. Mas em nossa loucura humana e nossa visão reduzida imaginamos que a graça divina seja finita… Porém, chega o momento em que nossos olhos são abertos, e vemos e entendemos que a graça é infinita. A graça, meus amigos, não exige nada de nós a não ser que a aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão.
Doze anos antes, Babette aparecera entre aquelas pessoas desprovidas de graça. Discípulas de Lutero, ouviam sermões a respeito da graça quase todos os domingos e no restante da semana tentavam obter o favor de Deus com a sua piedade e renúncia. A graça veio a elas na forma de uma festa, a festa de Babette, uma refeição desperdiçando uma vida inteira sobre aqueles que não a haviam merecido, que mal possuíam a faculdade de recebê-la. A graça veio como sempre vem: livre de pagamento, sem cordas amarradas, como oferta da casa.

Philip Yancey, em Maravihosa Graça.





Frase do Dia

15 07 2008

“Os homens não estão atrás de Deus. Estão atrás do milagre”.

Fiodor Dostoiévski





Frase do Dia

9 07 2008

 

“A pior maldição que um povo pode sofrer é ter uma religião movida à base de mera emoção e sensacionalismo. A ausência de realidade espiritual já é trágica; mas o aumento da falsa espiritualidade é pecado mortal”.

Samuel Chadwick





Frase do Dia

30 06 2008

“A oração nasce, se é que nasce, da incompetência,
caso contrário não seria necessária”.
Thérèse de Liseux