Frase do Dia

evangelismo1

“O evangelho é um fato, portanto, vamos expô-lo com simplicidade.
O evangelho é alegre; portanto, vamos falar dele com alegria.
Ele nos foi confiado; portanto, vamos expô-lo com fidelidade.
É a manifestação de um momento infinito; portanto, vamos expô-lo fervorosamente.
Fala de um infinito amor; portanto, vamos expô-lo com sentimento.
É de difícil compreensão para muitos; portanto, vamos expô-lo com ilustrações.
O evangelho é a revelação de uma Pessoa; portanto, vamos pregar a Cristo”.

Archibald Brown

Por que os crentes brasileiros desprezam elementos culturais?

Frevo“Toda cultura é manchada pelo pecado, seja ela americana ou africana, britânica ou indiana. Deve ser colocada debaixo do escrutínio da Palavra de Deus e purificada de tudo que não seja cristão…” (Dr. Theodore Williams).

Somos brasileiros. Absorvemos os elementos culturais que sempre nos rodearam desde o nascimento. Gostamos do sol, da informalidade, dos ritmos musicais que impedem nossos corpos de ficarem quietos, da comida variada, deliciosa e abundante encontrada de norte a sul.

Nasci em Recife. Gosto de frevo, maracatu, festas juninas, literatura de cordel e pratos típicos. No entanto, nenhum desses elementos está presente na maioria das igrejas. Cresci num meio evangélico que, de tanto usarem piano nos cultos, tornava difícil acreditar que algum anjo pudesse tocar harpa! Na minha adolescência discutia-se ainda sobre o uso da bateria nos cultos, e pensava-se que o diabo era o pai do Rock (na verdade, ele só tem uma filha: a mentira; v. João 8:44).

Certamente há elementos culturais de origem pagã que devem ser rejeitados pelos que professam a fé cristã, mas temos que cuidar para não jogar a água suja da banheira com o bebê junto! Muitos dos elementos culturais não tem influência demoníaca ou pecaminosa, servem de referencial para nossa identificação enquanto povo, e nos ajudam a contar nossa história.

Observe o que nos diz o Pacto de Lausanne:

“O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões, muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura,  em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus”.

Quero minha cultura brasileira de volta, quero exalar brasilidade sem culpa! Não sou inglês, norte-americano ou judeu! Sou brasileiro, com todas as cores, ritmos e sabores a que tenho direito.

Não existe cultura perfeita. Jesus, que viveu como judeu, por diversas vezes criticou os costumes judaicos e até mesmo os ignorou. Não acho que a cultura brasileira seja a melhor do mundo, mas é a que eu conheço e amo. Deus não me fez brasileiro para que eu vivesse como inglês! Eu sequer tomo o chá das cinco, e só vi neve na TV!

Os crentes desprezaram elementos culturais por causa da influência de missionários estrangeiros que trouxeram, junto com o evangelho, sua cultura como modelo de vida santa, que foi aceito sem questionamento. É hora de repensar nossa liturgia e comunicar o evangelho na linguagem que o brasileiro entende.

Ebeneser Nogueira, na revista “Rumo” (novembro/2007).

A Parábola da Laranjeira

laranjas.jpgEM SONHO eu viajava por uma estrada sem movimento: silenciosa, reta e vazia. De um lado e do outro, verdadeiros bosques de laranjei­ras -carreira após carreira estendia-se sem fim, até se perder de vista. Estavam carregadas de belas frutas maduras, pois era tempo de colheita. Minha admiração crescia à medida que quilô­metro após quilômetro se escoava. De que maneira se conseguiria fazer a colheita? Lembrei-me de que, durante todas aquelas horas que eu andava, não tinha visto viva alma. Não havia ninguém nos laranjais, e eu não tinha passado por outro carro. Não se viam casas à margem da estrada. Eu estava sozinho em meio a uma floresta de laranjeiras. Afinal vislumbrei alguns trabalhadores colhen­do as frutas. Longe da estrada, quase no horizonte, perdido no vasto ermo de frutas a colher, pude discernir pequenino grupo de colhedores traba­lhando diligentemente. Quilômetros mais adiante vi outro grupo. Não posso garantir, mas tive a impressão de que a terra debaixo de mim tremia de gargalhadas silenciosas diante da impossibilidade da tarefa. Contudo os trabalhadores prosseguiam em sua tarefa de apanhar laranjas.O sol já descambava no ocaso e as sombras se alongavam quando, sem nenhum aviso, dobrei uma curva da estrada e vi uma placa com os dizeres: “Termina o condado negligenciado – Entra-se no condado interno”. O contraste foi tão chocante que mal tive tempo para tomar conhecimento do aviso. Tive que reduzir a marcha de meu carro, pois de repente me achava no meio de tráfego intenso. Pessoas, aos milhares, formigavam pela estrada e abarrotavam as calçadas. Ainda mais notável era a transformação que se observava nos laranjais, que ali também haviam, repletos de laranjeiras, porém agora, longe de estarem abando­nados, estavam cheios do riso e do canto de multidões de gente. De fato, era o povo e não as laranjeiras que me chamavam a atenção – povo, e também casas.
Estacionei meu carro à margem da estrada e juntei-me à multidão. Vestidos chiques, sapatos bons, chapéus vistosos, ternos caros e camisas engo­madas, me tornaram cônscio de minhas roupas de trabalho. Todo o mundo aparentava ar
festivo e jovial. “É feriado?” perguntei a uma senhora bem vestida. Ela ficou por um momento espantada, depois sorriu com ar de condescendência.”O senhor é de fora, não?” perguntou, e, antes que eu pudesse responder, prosseguiu: “Hoje é o Dia da Laranja”. Ela deve ter notado meu olhar de perplexidade, pois continuou: “É tão bom voltarmos dos trabalhos, um dia por semana, para apanhar laranjas”. “Mas não colhem laranjas todos os dias?” per­guntei.
“Podemos fazê-lo a qualquer tempo”, respon­deu. “Devemos estar sempre prontos para colher laranjas, porém o Dia da Laranja é que consagra­mos especialmente a esse mister.
Deixei-a e penetrei mais no meio das árvores. A maior parte das pessoas levava um livro, muito bem encadernado em couro, com bordas e letreiro doura­dos. Pude ler na beirada de um desses livros: “Ma­nual do Apanhador de Laranjas”.
Daí a pouco, notei que em volta de uma das laranjeiras, tinha arranjado assentos dispostos em círculos ascendentes a partir do chão. Os assentos estavam quase todos ocupados, mas, assim que me aproximei do grupo, um cavalheiro sorridente e bem vestido me estendeu a mão e me levou para um lugar desocupado. Ali em volta da laranjeira eu via uma porção de pessoas. Uma destas se dirigia aos que estavam sentados, e, no momento em que eu chegava a meu lugar, todos ficaram em pé e começaram a cantar. O homem a meu lado me
deixou olhar com ele no seu livro de cânticos, que era entitulado: “Canções dos Laranjais. Cantaram durante algum tempo; o dirigente do canto abanava os braços com estranho fervor, exortando o povo nos intervalos entre os cânticos, a cantar mais forte. Fiquei cada vez mais perplexo. “Quando é que vamos começar a apanhar la­ranjas?” perguntei ao homem que me tinha cedido o livro de cânticos. “Não demora muito mais”, disse-me ele. “Gos­tamos de entusiasmar a todos primeiro. Além disso, queremos que as laranjas se sintam à vontade. Pensei que ele estivesse pilheriando, porém seu olhar era sério. Finalmente, o dirigente do canto entregou a palavra a um gorducho que leu dois períodos de seu exemplar, bastante manuseado, do Manual do Apanhador de Laranjas, e a seguir começou a fazer um discurso. Não entendi bem se ele se dirigia ao povo ou às laranjas. De relance olhei ao redor e vi diversos outros grupos, parecidos com o nosso, cada qual reunido em torno de uma laranjeira e ouvindo discursos de outros gorduchos.
Algumas árvores não tinham ninguém ao redor. “De quais pés colheremos?” perguntei ao ho­mem a meu lado. Ele pareceu não entender, então apontei as laranjeiras em volta. “Nossa árvore é esta, respondeu ele, apontan­do a laranjeira ao redor da qual nos achávamos reunidos. “Mas nós somos muitos para colher de uma árvore só!” protestei. “Ora, há mais pessoas do que laranjas! “Mas nós não colhemos as laranjas”, explicou meu companheiro. “Nós não fomos vocacionados. Isso é serviço do Pastor Apanhador de Laranjas. Nós estamos aqui para apoiá-lo. Nós não fizemos o curso. Para ser bem sucedido em apanhar uma laranja, a pessoa precisa saber como a fruta pensa – psicologia larângica, não sabe? A maior parte das pessoas aqui (apontando para os assistentes) nunca freqüentou a Escola do Manual. “Escola do Manual?” sussurrei. “Que é isso?”  “É onde vão para estudar o Manual do Apanhador de Laranjas”, esclareceu meu infor­mante. “É muito difícil; precisa de anos de estudo para entender”. “Então é assim?” murmurei. “Eu não fazia ideia de que fosse tão difícil apanhar laranjas”.
O gorducho, lá na frente, ainda estava fazendo seu discurso. Estava agitado; parecia que estava indignado a respeito de alguma coisa. Ao que pude entender, havia rivalidade entre outros grupos e o dele. A seguir, seu rosto brilhou. “Mas não estamos abandonados”, exclamou. “Temos muitos motivos para dar graças a Deus. Na semana passada, vimos três laranjas tra­zidas para o nosso balaio, e acabamos de liquidar toda a dívida das novas capas que ornam as almofadas em que vos achais sentados neste instante”.
“Que maravilha, não?” disse o homem a meu lado. Eu não respondi. Senti que alguma coisa devia estar profundamente errada. Tudo aquilo me pare­cia ser uma forma muito esquisita e confusa de se colher laranjas.O gorducho estava
atingindo o clímax de seu discurso. O ambiente estava tenso. E então, com um gesto muito dramático, ele estendeu a mão em direção a um dos galhos, apanhou duas laranjas e depositou-as na cesta que estava a seus pés. Os aplausos foram ensurdecedores. “Agora nós começamos a colher?” perguntei a meu companheiro. “Ora, que é que o senhor supõe que estamos fazendo?” perguntou ele. Todo este esforço, a que o senhor imagina que se destina? Há mais talento para colher laranjas, neste grupo, do que em todo o restante do
condado interno. Milhões de reais têm sido gastos com a laranjeira que está diante de nós”. Apressei-me a pedir desculpas. “Eu não esta­va censurando”, falei; “e tenho certeza de que o gorducho deve ser muito bom apanhador de laran­jas, mas nós outros não podíamos experimentar também? Afinal de contas, há tantas laranjas que precisam ser colhidas. Todos nós temos duas mãos, e podíamos ler o Manual”. “Quando o senhor estiver no negócio tanto tempo quanto eu, compreenderá que não é assim tão simples”, respondeu ele. “Para começar, não temos tempo. Temos nosso serviço a fazer, nossa família a cuidar, nossa casa a zelar.  Nós…”
Mas eu não estava escutando. A luz começava a raiar em minha frente. Fosse o que fosse essa gente, apanhadores de laranjas é que não eram. Para eles, a colheita de laranjas não passava de um tipo de divertimento de fim de semana. Experimentei mais alguns dos grupos ao redor das laranjeiras. Nem todos tinham padrões acadêmicos tão elevados para colhedores de laranjas. Alguns davam aulas sobre a matéria. Procurei contar-lhes das laranjeiras que eu tinha visto no condado negligenciado, mas não parecia que lhes interessava muito. “Ainda não colhemos todas as laranjas daqui”, era a resposta mais comum. Em meu sonho, o sol quase acabava de apare­cer, e, cansado do barulho e movimento ao redor, entrei no carro e comecei a voltar pela mesma estrada.
Logo havia, em todos os lados, os vastos e abandonados laranjais. Havia, porém, modificações. Algo tinha aconte­cido na minha ausência. Por todos os lados o chão se cobria de frutas caídas. E, enquanto eu olhava, me pareceu que as árvores começavam a chover laran­jas. Muitas delas jaziam apodrecendo. Senti que, em tudo isso, havia alguma coisa de muito estranho; e mais: sentia-me confuso ao lem­brar-me de toda aquela gente no condado in­terno.
Então, ressoando através das árvores, veio uma voz que dizia: “A seara é grande, mas os trabalhado­res são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores…”
E acordei, pois era apenas um sonho!

por John White
Publicado pela “Missão Novas Tribos do Brasil”.