Tão conveniente…

cerveja
“Havia numa cidadezinha dos Estados Unidos uma igreja batista conhecida pelo seu rigor ético. Seus membros seguiam rigorosamente os mandamentos e os costumes que a tradição sacralizara. Não participavam de bingos, não fumavam e não bebiam – atos que julgavam artimanhas do diabo para levar as almas à perdição. Havia naquela mesma cidade uma cervejaria. Não é preciso dizer que a dita cervejaria estava sempre presente nos inflamados sermões do pastor, que a acusava de igreja de Satanás. Aconteceu, entretanto, que por razões não esclarecidas, a igreja foi surpreendida com algo impossível de ser imaginado: a cervejaria lhe fez uma doação de 500.000 dólares. Criou-se imediatamente um problema. Se a doação tivesse sido de 500 dólares teria sido fácil rejeitá-la. Quinhentos dólares não é tanto dinheiro assim. Mas 500.000 … O pastor convocou imediatamente uma assembléia dos membros da igreja, porque as igrejas batistas são democráticas. A assembleia se dividiu em dois grupos: aqueles que diziam que o dinheiro tinha de ser rejeitado por ser dinheiro de Satanás e os outros que falavam sobre as coisas boas que poderiam ser feitas com aquele dinheiro – uma creche, ou uma escola, ou um abrigo para velhinhos, ou um novo órgão. Depois de prolongados debates que entraram madrugada adentro, a assembléia, por voto unânime, aprovou a seguinte resolução: ‘A assembléia da Primeira Igreja Batista resolve aceitar a doação de 500.000 dólares feita pela cervejaria Dubweiser na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus’”.

(IN: O SAPO QUE QUERIA SER PRÍCIPE, Rubem Alves, Planeta, 2009, p. 152)

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Boa Memória…

Um frequentador de igreja escreveu para um jornal dizendo que não fazia sentido ir à igreja aos domingos. “Eu tenho ido à igreja por trinta anos”, ele escreveu, “e durante este tempo ouvi uns 3000 sermões. Mas não consigo me lembrar de nenhum deles”. Meu sofrimento é diferente do dele. Sofro porque me lembro.
Rubem Alves, em “Ostra feliz não faz pérola”.

O dia em que os jacarés invadiram Nova York

Deu no jornal: experiências genéticas produziram minúsculos jacarés que foram vendidos aos milhares em Nova York como brinquedo. Mas eram ferozes como seus ancestrais e os pais, receosos de que os filhos fossem mordidos, despejaram os jacarezinhos nos vasos sanitários e puxaram a descarga. Foi um erro fatal: centenas de jacarés sobreviveram e fizeram dos esgotos da cidade seu habitat. E lá, durante anos, se reproduziram. E cada geração – sabe-se lá os insondáveis mistérios da genética – aumentavam de tamanho, acabando por produzir espécies muito maiores que os crocodilos do Nilo. Quando as autoridades deram pela coisa era tarde. Pela saídas do metrô, pelas galerias de esgotos, pelo rio Hudson, milhões de jacarés gigantescos ganharam as ruas num ataque de surpresa e comeram a maior parte da população. Mais espantoso ainda: os jacarés assimilavam a personalidade daqueles que devoravam. De modo que a estrutura da cidade não se alterou muito, só que em vez de seres humanos eram jacarés que dominavam a cidade: serviços públicos, transporte, comunicação, tudo. A estátua da Liberdade foi substituída por um jacaré com um archote. Nem todos os habitantes foram comidos. Os jacarés que haviam comido os cientistas especializados em genética começaram a fazer experiências com suas cobaias humanas. Até que conseguiram reproduzir em laboratório homenzinhos com 20 centímetros de altura, que foram vendidos como brinquedos para os filhotes de jacarés. Mas os minúsculos seres não haviam perdido a ferocidade de seus ancestrais e começaram a hostilizar seus donos com lanças improvisadas. Os jacarés, com receio de que seus filhos se machucassem, pegaram os homenzinhos e os despejaram nos vasos sanitários. E puxaram a descarga. Foi um erro fatal para os jacarés.

Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (Jaguar)